terça-feira, 11 de junho de 2013

Mar Morto - Jorge Amado

 "É doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar..."



Os versos iniciais da música de Dorival Caymmi, estão presente no romance "Mar Morto" do baiano Jorge Amado, e exemplifica o sentimento dos mestres de saveiro do porto, sempre a espera da morte, amando suas mulheres com furor antes de partir, sabendo que podem não voltar. 
As mulheres do mar não temem por seus homens, pois sabem que um dia eles não voltaram, irão para as terras do mar sem fim, encontrar-se com Iemanjá. Lívia, porém, não é uma mulher do mar, por isso ele é seu inimigo e, a cada viagem, seu coração fica triste a espera de Guma, o mestre do saveiro "Valente".
Diferente de Maria Clara, Esmeranda e Judith, mulheres do porto, Lívia não perdeu os homens de sua família para o mar, por isso, quer que seu homem sobreviva à vida de marinheiro, podendo gozar para sempre as delícias dos braços um do outro.
O tio de Guma, o velho mestre Francisco, tem no braço o nome do irmão e dos quatro saveiros que ficaram no fundo do mar. Ele se prepara para um dia colocar também o nome do sobrinho Guma, que não pode fugir à sua sina. Homem cercado de lendas, Francisco carrega consigo a dádiva de ser o únco marinheiro a ver Iemanjá estando vivo, o que o deixa confuso quanto ao seu fim.
O mar é ao mesmo tempo amigo e inimigo, pois leva a vida de filhos, maridos, pais, irmãos, mas também é responsável pelo sustento das famílias e por toda a cultura do porto, as músicas, as danças, as lendas...extremamente poético, o romance representa um espaço da Bahia que tem suas próprias tradições, a religiosidade, os costumes, as regras, cercando os homens de mitos que envolvem antigos moradores do lugar em histórias de amor, vingança, sofrimento...no fim do romance o mar está morto para Lívia, mas el sabe que não poderá abandoná-lo, pois o mar é Guma, representa tudo que ele amou e viveu durante sua vida. 
Assim como outras obras de Jorge Amado, "Mar Morto" foi adaptado para a TV.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As Vinhas da Ira - John Steinbeck

A família Joad, natural do estado norte-americano de Oklahoma, é expulsa de suas terras, vítima da competição e das párias sociais. Começa então o êxodo em busca da "terra prometida", a Califórnia, famosa pelas plantações abundantes de frutas que ofereceriam trabalho e vida nova aos lavradores. 
O romance "As Vinhas da Ira", do escritor norte-americano John Steinbeck,  se desenvolve no período da Grande Depressão nos anos de 1930, no qual o flagelo de um país debilitado causava dramas naturais, como a miséria e o desemprego. 
Tom Joad, o filho mais velho da família, volta para casa depois de passar quatro anos na cadeia, condenado por assassinato. Ele logo percebe que a vida não é mais a mesma, pois as terras da família estão abandonadas e, ao encontrar o pregador Casy, decide ir junto da família até as ricas terras da Califórnia, nas quais, segundo as palavras do seu velho avô, "se poderia pegar uvas e comê-las, vendo-as escorrer pelas roupas". 
Cada personagem da família tem um significado muito importante na história. O Avô e a avó representam a velha geração que não aceita separar-se da terra onde nasceu e, por isso, não conseguem sobreviver às mudanças e morrem durante a viagem. Tio John, atormentado pelo remorso de ter causado a morte da esposa grávida, culpa a si pelo sofrimento que a família passa, esquivando  governo e a situação de desigualdade social de suas responsabilidades. A mãe é a força da família e, mesmo diante das dificuldades, consegue solucionar os problemas, mesmo sendo realista e sabendo das dificuldades nas quais a família está inserida. O pai é o homem que sonha com uma vida melhor para seus filhos e, por isso, enfrenta todas as opiniões contrárias aos seus planos de viagem. 
O pregador Casy é o homem que pensa e reflete as situações e, por isso, acaba morto ao liderar uma greve que pedia salários mais dignos aos bóias-frias. Tom Joad é aquele que leva as ideias de Casy adiante e, por isso, diz à mãe que onde houver um injustiçado, ele lá estará. Palavras que anunciam sua vida de luta daquele momento em diante.
A jovem Rosa de Sharon (ou Rosasharn), carrega em seu ventre o fruto de um casamento que acabou durante a viagem e, assim como as esperanças de melhor qualidade de vida da família, o bebê não consegue sobreviver, transformando-se num sonho desfeito, como o sonho da mãe de ter uma casinha branca na qual os filhos pudessem brincar no quintal. 
A obra-prima de Steinbeck rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer e depois, o escritor ainda foi agraciado com o Nobel de Literatura. Adaptado para as telas do cinema no ano de 1940, com Henry Ford no papel de Tom Joad, o filme foi um grande sucesso. O cantor Bruce  Springsteen fez uma música chamada "The Ghost Of Tom Joad".

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ben Hur - Uma Historia Dos Tempos De Cristo


O romance épico "Ben Hur - uma história dos tempos de Cristo", foi escrito pelo general norte-americano Lew Wallace, que também foi um renomado pintor e tinha grande conhecimento da Bíblia, o que ajudou na composição do seu livro mais famoso. 
Todas as vezes em que foi levada às telas de cinema, a obra-prima de Lew Wallace obteve grande sucesso. 
Contemporâneo de Jesus Cristo, Judá Ben Hur é uma herói que, injustiçado e traído pelo melhor amigo, o romano Messala, consegue sair de uma situação difícil e volta para procurar vingança e sua família perdida. O enredo pode parecer simples, mas a ambientação e o tempo no qual ele se passa envolvem o leitor, que passa a viver cada angústia da vida do hebreu Ben Hur de forma plena, pois é um personagem íntegro em questões morais, além de ser devotado à família e à religião judaica. 
Num mundo dominado por Roma, Judá Ben Hur é acusado de tentar contra a vida do cônsul romano e, por isso, condenado a servir nas galés como escravo para o resto de sua vida, além de não saber o que foi feito com sua mãe e sua irmã. A casa de Hur ficou desmoralizada e todos os bens da família foram confiscados, sendo um dos beneficiários o jovem ambicioso Messala, antigo amigo de Ben Hur que, depois de passar um tempo estudando em Roma, retorna à Israel com ideias que valorizam extremamente os romanos enquanto diminuem os judeus. 
Ajudado por pessoas que conquista com sua personalidade cativante, entre elas o próprio Jesus Cristo, Judá Ben Hur conseque a confiança e a adoção de um rico cidadão romano, que faz com que ele seja livre das galés e vá até Roma aprender as técnicas de luta deles. 
A corrida na qual Ben Hur vence o rival Messala é épica e, extremamente cinematrográfica, além de muito emocionante.
Ao conhecer o Mago baltazar, um dos três que acompanhou a estrela-guia e adorou o Cristo Menino, Judá Ben Hur começa a se interessar pelo tão desejado Messias e, então, promete colocar tudo que tem em favor dele quando o encontrá-lo. Desta forma, Ben Hur não entendia algumas características do reino que o tão falado Rei dos Judeus iria implantar, mas, depois de segui-lo por três anos e presenciar milagres importantes, entre eles, a cura da mãe e da irmã que eram leprosas, Ben Hur finalmente entende a visão espiritual que o Cristo tinha do reino de Deus. 
Ben Hur está presente em momentos importantes da vida de Jesus, como o seu batismo no rio Jordão e a sua crucificação, assim como Cristo está presente no momento mais triste da vida de Ben Hur, quando ele era levado como escravo. Jesus tem piedade do jovem hebreu e oferece água, salvando assim a vida do jovem escravo.
O núcleo central deste épico é a fé e a busca espiritual, que se concretizam na figura de Ben Hur, do mago Baltazar, da irmã e da mãe do protagonista, além da jovem Ester. Um romance para ser lido e vivido. 


domingo, 23 de dezembro de 2012

Grandes Esperanças - Charles Dickens

A obra de Charles Dickens justifica sua tamanha popularidade em meados do século XIX. Popularidade esta que se estende até os dias de hoje, pois ele está entre os escritores ingleses mais apreciados do mundo. Seus livros são adaptados para a TV, Cinema, teatro e séries, provocando emoções mesmo depois de tantos anos de lançamento. Um dos seus romances mais populares é, sem dúvida, "Grandes Esperanças". Publicado entre 1860 e 1861, em forma de folhetim, como era comum. Logo no início temos o sofrimento do órfão Pip, que sofre com a convivência difícil ao lado da irmã mais velha, uma tremenda megera que lhe impõe duros castigos por ter a obrigação de criá-lo. Pip está no cemitério da do povoado lendo as inscrições nos túmulos de seus pais, quando encontra o homem que mudaria sua vida: um forçado fugindo das galés, homem de aparência cruel que aterroriza o pobre menino com ameaças, e, através do medo, consegue a ajuda de Pip. Mas na vida do órfão não há apenas pessoas ruins, ele tem a companhia e o apoio do ferreiro John Gargery, o marido de sua irmã, homem bom e honesto que pretende tornar Pip herdeiro de seu ofício. Como todo romance de Charles Dickens, não poderiam faltar os personagens estranhos, como a misteriosa Miss Havisham, a mulher mais rica do povoado que, depois de uma decepção amorosa, permanece vestida com o vestido de noiva e mantendo no quarto todas as lembranças do casamento que não aconteceu. Temos também Estela, a filha adotiva de Miss Havisham, grande paixão do pobre Pip. As esperanças de menino não são grandiosas, até o dia em que um advogado vai até sua casa e o informa de que é herdeiro de grande fortuna, sendo que poderá ir até Londres e se transformar num verdadeiro cavalheiro. A identidade do bondoso que o ajudou não é informada. O romance é dividido em três partes e trata da bondade, desejo, culpa. Quando Pip vai viver em Londres ele faz de tudo para se tornar digno para casar-se com estelo, e este desejo louco faz com que ele despreze sua vida passada e mesmo as pessoas que sempre foram bondosas para com ele, como seu cunhado John Gargery, por exemplo. Ao mesmo tempo em que abandona os parentes e amigos do povoado, o jovem se sente culpado por tomar tais atitudes, mas não deixa de fazer da sua vida uma mar de consumo e de vida pouco produtiva, o que o leva a dívidas e problemas finaceiros. As grandes esperanças de Pip não foram realizadas da forma como ele pretendia, mas ele acaba descobrindo através da dor e do sofrimento que seus sonhos de entrar para a alta sociedade não o tornaram mais feliz e só o afastaram da vida na qual ele realmente estava inserido. 
A empatia do leitor com o protagonista talvez não seja tão natural, pois ele é um personagem sincero, que busca através da culpa o perdão dos leitores pelas suas faltas. 
Assim como "David Copperfield", "Grandes Esperanças" tem traços autobiográficos, pois Dickens sofreu em sua infãncia com a pobreza, tendo que trabalhar desde cedo para ajudar nas despezas da sua família, sendo que seu pai chegou até a ser preso por dívidas. 
O órfão Pip e tantos outros deste romance entram para a galeria dos melhores criados pelo mestre Charles Dickens. 




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os Miseráveis - Victor Hugo

Uma obra que sempre me causou curiosidade, assim eu definia o romance "Os Miseráveis" antes de lê-lo. Depois que consegui fazer a leitura do livro, classifico como um livro que nunca vou esquecer. 
O ex-forçado Jean Valjean converteu-se num dos personagens mais emblemáticos da literatura mundial, modificando sua vida através de uma boa ação, ele se torna quase um "santo" e retribui às pessoas a nova chance que recebeu. 
 Publicada em 3 de abril de 1862, pelo escritor Francês Victor Hugo, a obra continua viva no imaginário dos leitores trazendo, além de Jean Valjean, personagens intensos como a sofrida Fantine, sua filha Cosette, o jovem apaixonado e republicano Marius...além do órfão Gravouche, do casal Thenardier, que tinha como princípio não ter princípios, e de um dos melhores policias da Literatura mundial: o obstinado Javert.
O enredo de "Os miseráveis" é da mesma forma intenso, com uma história de sofrimento, esperança, miséria e compaixão. 
A luta de Jean Valjean e da menina Cosette para recomeçarem suas vidas é a luta do dia-a-dia de cada cidadão, e, mesmo que a história aconteça em meados do século XIX na França, expõe uma Europa diferente da que constumamos ver, uma Europa onde há pessoas que viviam sem dignidade alguma, onde crianças são abandonadas nas ruas e têm que lutar desde a mais tenra infância pelo pão de cada dia, onde mulheres têm de se prostituir e são presas e julgadas por isso. 
Hugo narrou seu romance magistral numa linguagem que representou para a literatura "o mesmo que a Revolução Francesa na História", segundo o crítico Sérgio Paulo Rouanet.
Nenhum outro romance se aproxima do estilo único de "Os Miseráveis" que, por tratar de temática sempre atual, recebeu inúmeras adaptações para a TV, o cinema, o teatro. 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O poder persuasivo e sedutor de Rebecca e Raquel

Teriam algumas mulheres a capacidade de, mesmo sem intenção, atrair a tragédia para si e 
para os que a rodeiam? Em dois romances muito populares da escritora inglesa Daphne Du Maurier, “Rebecca” e “Minha prima Raquel”, temos direta ou indiretamente este conceito. A mulher vista como perdição para os homens que dela se aproximam, que destrói tudo o que toca; um papel cruel relegado a ela por diferentes sociedades em diversos períodos da história.  Em tempos distantes muitas foram levadas a fogueira ou condenadas a sofrer humilhações públicas por praticarem atos que contrariavam o pensamento geral da sociedade. 
Ser mulher é carregar desde cedo muitas expectativas. Rebecca e Raquel tinham seu papel definido na sociedade: esposas dedicadas que carregavam em si encantos especiais, capazes de conquistar pessoas através da presença cativante.  Mas ao demonstrarem a face oculta que a sociedade condena, as duas receberam o mesmo julgamento, restando-lhes a morte como ponto final para uma vida misteriosa e cheia de peripécias.
A Imagem da mulher como ser dissimulado, capaz de usar seus atributos para conseguir o que quer, levou muitas à fogueira no período de caça às bruxas, além de formar um conceito desde cedo enraizado no qual o ser humano do sexo feminino tem em si uma perversão natural e o poder de persuasão que pode levar homens a compartilharem esta perdição.
Daphne Du Maurier apresenta, através destes dois romances, duas personagens emblemáticas e deixa claro que, assim como aconteceu com Capitu, Emma Bovary e Anna Karênina, a sociedade não perdoaria o comportamento de Rebecca e Raquel, pois elas também pisaram em terreno pedregoso e tiveram que pagar um preço por isso. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Machado de Assis - o Bruxo do Cosme Velho faz aniversário


No ano de 1839 nasceu precisamente neste dia, 21 de junho, um dos maiores escritores da língua portuguesa. Este escritor recebeu o nome de Joaquim Maria Machado de Assis, nome este que ficou marcado para sempre na história da Literatura. 
Todos os brasileiros deveriam lembrar-se deste dia com muito carinho, pois este homem representa o Brasil no que tem de melhor: sua cultura. 
No fim do século XIX, Machado de Assis fundou, junto com outros grandes nomes da Literatura Brasileira, a Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente desde 1896 até o ano de sua morte, 1908. 
Machado de Assis é uma das razões pelas quais eu me orgulho deste belo país chamado BRASIL.

domingo, 17 de junho de 2012

Sonata a Kreutzer - Leon Tolstói

Os sentimentos exaltados que esta novela evoca encontram paralelo na famosa peça de Beethoven conhecida como Sonata a Kreutzer, composta em 1803, que não apenas inspirou o título do livro como constitui um de seus motivos centrais.
Leon Tolstói era um homem muito sensível à música. Tão sensível que acreditava que ela poderia ter grande influência sobre o homem.  Foi justamente ao ouvir uma apresentação dessa sonata em sua própria casa, na primavera de 1888, que ele retomou uma ideia que já o ocupara antes: retratar, de forma aguda e radical, o desequilíbrio nas relações entre homens e mulheres, a questão da infidelidade no casamento e a hipocrisia social que cerca tudo o que diz respeito ao sexo.
O enredo dialoga com as escalas vertiginosas do piano e do violino na sonata de Beethoven, e no qual o andamento inexorável da tragédia se soma à lucidez cristalina da linguagem. A novela foi considerada escândalosa na época do seu lançamento, no ano de 1891, e até mesmo antes disso, quando seus manuscritos foram lidos dentro e fora da Rússia. Posteriormente, o livro chegou a ser proibido nos Estados Unidos. 
Podzdnischeff conta sua história de boêmia, ciúmes e tragédias para o narrador que vê-se envolvido naquela nova situação durante uma viagem de trem, na qual o desconhecido escuta uma conversa sobre questões envolvidas ao casamento. Começa então a narração do edílio sentimental de um homem que se reconhece seus erros em alguns pontos: a boêmia exagerada na juventude, o casamento que trouxe-lhe tantos problemas, a sensualidade mantida mesmo enquanto sua esposa cumpria com os "deveres" de mãe.
O fim trágico da relação com a esposa é digno de outra obra de Tolstói, o grande romance "Ana Karênina", no qual a protagonista também perde a vida, depois de ficar perdida numa rede de traições, ciúmes e remorsos. Mas, ao contrário de Ana, a esposa de Podzdnischeff, personagem feminina de Sonata a Kreutzer, não escolhe a morte. Neste ponto é o homem que toma a decisão, sem nem ao mesmo ter uma confissão da parte da mulher. Podzdnischeff  age como juiz e condena a mãe de seus filhos à pena de morte, sob a acusação de traição. 
Com certeza esta obra de Leon Tolstói deve ser leitura obrigatória para todos aqueles que apreciam enredos e personagens fortes, complexos e bem construídos, aliados a um contexto histórico e espaço peculiares, estilo inconfundível do grande escritor russo. 





domingo, 11 de março de 2012

Dor de amor...

Em qualquer tempo ou escola literária se sofre por amor. São súplicas para que a pessoa amada volte, lembranças dos bons momentos, e tantas outras coisas que, colocadas num poema, conto, romance, tornam poética a triste situação.
Para começar, este soneto de Olavo Bilac:

Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
_ Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!..

Depois de vinte anos de silêncio, a explosão de sentimentos acontece de uma forma atormentada, eu imagino este homem dizendo tudo isso à mulher que o fez sofrer. Com certeza a situação não ficaria nada tranquila.
Outro que também gritou sua dor foi o grande poeta Castro Alves:

4a SOMBRA - FABÍOLA

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!


Ver a mulher que o fez sofrer divertir-se sem nenhuj sentimento de culpa enquanto ele ainda sofria as dores do amor perdido, foi um golpe duro demais para ele. O poeta utiliza esta mesma temática no poema "Adeus", que mereceu até mesmo uma resposta da referida amada Eugênia Câmara.
E quando a falta se faz por meio dos detalhes da vida em comum? É o caso deste texto de Dalton Trevisan:

Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Sem amor a casa fica vazia e, pequenos detalhes, antes ignorados, agora fazem uma tremenda falta e parece que não pode existir vida longe disso. Definitivamente, o que seria da cultura sem o amor?


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Danielle Steel


Em toda a minha vida eu li apenas dois romances da famosa escritora norte-americana Danielle Steel. Quando eu era adolescente li "O segredo de uma promessa" e fiquei encantada com o enredo, embora entendesse que era bem fantasioso, parecia mesmo uma novela de TV ou um filme romântico.
Já na idade adulta, quanto eu tinha uns 23 anos, ganhei um outro romance dela de presente, na verdade veio para mim numa caixa, entre outros tantos livros usados. O título é "Um longo caminho para casa". Confesso que depois de ter me formado em Letras e escutar muitos comentários ruins acerca de autores como ela, senti uma ponta de preconceito e comecei a evitar a leitura. Não aceitava mais a ideia de uma autora se tornar personalidade conhecida e até mais importante que os próprios romances. Só agora, aos 26 anos, resolvi dar uma chance ao romance de Danielle Steel.
Confesso que fiz isso para aliviar um pouco minha mente, já que estava lendo "O Poderoso chefão" de Mario Puzo (que muito críticos julgam de forma pejorativa, assim como julgam Danielle Steel). Li o romance "Um longo caminho para casa" em apenas 6 dias, record para mim, já que costumo demorar na leitura.
Logo no início fiquei chocada, uma menina de seis anos se escondendo da mãe com medo de ser encontrada. Pensei que ela iria levar uma bronca, mas, ao invés disso, recebeu ofensas, humilhações, e o pior, chutes e pontapés que a deixaram caída no chão, sem forças para se levantar. E tudo isso sob olhar do pai, que no início acreditei ser mais uma vítima da horrível Eloise, que espancava a filha e a tratava como se estivesse num quartel, porém, com o caminhar da trama notei que John, pai da garotinha espancada, era um covarde e, com sua covardia, se tornava desprezível aos meus olhos.
A pobre garotinha, que por sinal se chama Gabriella, sofre as maiores atrocidades desde a mais tenra idade (sua mãe utiliza castigos físicos desde que a filha tinha pouco mais de um ano), o que faz com que, aos seis anos, já tenha experiência de vida suficiente para julgar o ser humano e tomar conclusões sobre sua própria personalidade. É como se ela tivesse vivido mais do que uma pessoa de quarenta anos que já tivesse participado de umas duas ou três guerras.
E o sofrimento da pobre menina não acaba...o pai dá a cartada final, abandonando a filha aos nove anos, aos cuidados da mãe violenta. Costelas quebradas, tímpanos feridos depois, A megera Eloise resolve abandonar a menina num convento, já que iria se mudar de Nova York para San Francisco para se casar com outro homem. Gabriella tinha apenas dez anos, mas já havia vivido e sofrido muito. Fiquem calmos leitores, o convento descrito no romance não é tenebroso como em muitos outros, pelo contrário, lá a menina encontra a paz, embora não consigo se livrar de seus fantasmas do passado.
Sob os cuidados de Irmã Gregória, Gabriella cresce tendo paz pela primeira vez em sua curta vida. Para fugir das atrocidades de sua vida com os pais, a menina havia desenvolvido o gosto pela escrita, o que a ajuda muito, pois ela entra na faculdade e se forma com louvor, embora tenha medo de se infiltrar no "mundo real", que já tanto a machucou.
Eu esperava a redenção, acho que estes romances da Danielle Steel têm o poder que causar esta angústia nos leitores. Achei que ela viria quando a doce postulante Gabriella (ela resolvera abraçar a vocação religiosa quando terminara a faculdade) conhece o Padre Joe Connors. Atlético, jovem, bonito, interessante, bem-humorado, o reverendo era o homem perfeito para trazer amor ao coração inocente de Gabriella. Eu, que sou católica, confesso que torci para que os dois ficassem juntos. Mas o amor por Joe só trouxe mais sofrimentos à jovem postulante, já que ele, assim como seu pai, não tivera coragem suficiente para assumir seu amor por ela, e acabou se suicidando quando ela ainda sonhava com o futuro matrimônio. Para piorar, Gabriella perde o bebê que esperava e quase morre, além de ter que sair do convento e dizer "Adeus" para as freiras que tanto a amaram e a ajudaram.
Quando nada poderia ficar pior, eu já havia desistido da tão sonhada redenção, do momento em que Gabriella finalmente seria feliz, afinal de contas, é isso que se espera de um enredo como este. Ela se hospeda numa pensão pobre, de propriedade de uma imigrante polonesa. Lá, conhece um professor aposentado idoso que logo se identifica com a jovem e passa a protegê-la, tornando-se seu confidente e ajudando-a na carreira como escritora; mas logo a pobre menina terá ainda outra decepção, o namorado, Steve Poter, é um explorador e tenta viver às suas custas, logo ela descobre que ele é um homem perigoso, procurado pela polícia. Para piorar, Gabriella perde o amigo professor (mas recebe uma herança dele). Quando Steve descobre que não pode mais enganar a jovem e não conseguirá tirar mais dinheiro dela, resolve matá-la, dando-lhe uma surra que a fez lembrar a infância dolorosa ao lado dos pais. Mas onde está "o caminho para casa"? Ao passar pelo setor de traumatologia de um grande hospital e ficar em coma por muito tempo, Gabriella conhece um médico que carrega algumas características do antigo amor, o finado padre Joe...ele também é bonito, bem-humorado e, melhor do que Joe, já que é um homem decidido.
Mas o romance entre os dois está apenas começando quando o livro termina e, o tal "caminho para casa" era, na verdade, alguma resposta que Gabriella teria de ter sobre o amor que seus pais nunca sentiram por ela.
Não me sinto arrependida pela leitura, mas acredito que falta alguma coisa. Não sei, acho que me senti assistindo a uma novela de TV mesmo, com suas reviravoltas, peripécias amorosas e "casos de família" singulares. Ao contrário do que procurava, esta leitura não foi leve, pelo contrário, em certos pontos foi bem pesada, já que conheci uma sucessão de tragédias na vida de Gabriella, que termina o romance com menos idade do que a que estou agora.
Sem contar nos inúmeros vilões que deixam Teresa Cristina no chinelo, afinal de contas, para a sociedade não há nada pior do que maltratos à crianças, especialmente filhos. E o que dizer de Steve Poter? Um charlatão da pior espécie, gigolô explorador de mulheres. Para ser uma novela de TV faltaria apenas um galã, pois o atormentado Padre Joe não seria classificado como tal devido ao desfecho que teve, e o médico bonitão aparece já no final do romance, falta-lhe tempo para desenvolver melhor sua relação com Gabriella e conquistar o público feminino leitor.
sabe o que eu imagino? Como seria uma novela de TV baseada nos romances de Danielle Steel. Se algum autor juntasse "O segredo de uma promessa", "Um longo caminho para casa", "Um mundo que mudou", "Porto seguro" (não li os dois últimos mas conheci o enredo através de filmes). Acho que seria uma boa trama, quem seria a protagonista? Qual enredo conquistaria mais o público? São perguntas que me faço neste momento...


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O retrato de Dorian Gray e O retrato oval - comparação

"Imagem não é nada". Este slogan povoou a mídia por algum tempo, mas será mesmo verdade que ele encerra o verdadeiro conceito humano da importância da imagem? Duas obras desmentem esta verdade absoluta pregada pelo já referido slogan.
No romance "O retrato de Dorian Gray" do irlandês Oscar Wilde, temos o personagem título que carrega em si um pensamento atemporal, a vontade de ser jovem e belo para sempre. A vaidade contida em Dorian Gray é notavelmente acrescida quando percebida as vantagens que sua esplêndida beleza acarreta: ser o centro das atenções, o homem mais desejado (em termos de amor e amizade).
No conto "O retrato oval" do norte-americano Edgar Allan Poe, um personagem sem nome, apresentado apenas pela profissão de pintor, ama a arte acima de tudo, mas, diferente de Dorian, ele não valoriza a própria beleza, mas a beleza que a arte proporciona.
A partir deste ponto encontramos um ponto de convergência entre as duas obras; enquanto Dorian deseja a beleza presa no quadro, que nunca se diluirá nem sofrerá as agruras do tempo, o pintor deseja alcançar a perfeição na obra que pinta, para que a imagem humana da beleza perfeita não se perca através dos tempos.
O mesmo desejo que impulsiona os dois personagens também acarreta consequências e, desta forma, Dorian e o pintor descobrem que o slogan apresentado nestas primeiras linhas pode ter um fundo de verdade.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Por um pé de feijão - Antônio Torres

Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida.
Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar.
Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar?
E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta.
No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.
Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe.
E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão:
- Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido?
E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca.
À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado.
Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando.
- Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos.
E disse mais:
- Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo.
Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.


A colheita é o ápice da vida do lavrador. O momento no qual o homem do campo fecunda a terra é o tempo da esperança, mas também da angústia, pois, se os frutos forem bons, haverá fartura, mas há fatores que fogem do alcance do homem e estes mesmos podem destruir o trabalho de muito tempo em alguns segundos.
No conto "Por um pé de feijão" de Antônio Torres, o protagonista relembra um tempo passado, o melhor de todos os anos, no qual ele vive a esperança e a alegria dos dias que antecedem a colheita.
"Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida." (TORRES, Antônio. Por um pé de feijão)
A família está unida no trabalho e, trabalhar não é uma obrigação, mas sim, um "gosto". O feijão britou da terra e nada aconteceu para impedir seu desenvolvimento...nenhum fator natural, destruiu a plantação.
Se no episódio da "Criação do mundo" descrito na Bíblia o homem foi criado para cuidar do jardim, no conto citado homem e terra são dependentes um do outro.
"Deus disse: ‘Que a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem sobre a terra, segundo a sua espécie, frutos contendo a sua semente’, e assim se fez. A terra produziu verdura: ervas que dão semente segundo a sua espécie, árvores que dão, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia" (Gn 1,11-13).
"Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1,26).
"Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra’. Deus disse: ‘Eu vos dou todas as ervas que dêem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêem semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas’, e assim se fez. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e um manhã: sexto dia" (Gn 1,27-31).
Podemos fazer outras ligações (ainda mais claras) entre o conto e a Bíblia. As apostas feitas no conto de como seria virtuosa a produção podem ser comparadas à parábola do semeador.
"Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta."(TORRES, Antônio. Por um pé de feijão)
"Disse ele: Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram.Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda.Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes.Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram.Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um." (Mt 13, 4-8)
Quando o jovem narrador tem, diante de seus olhos, a tragédia da destruição dos campos de feijão, temos o paradoxo entre a esperança bíblica da plantação e o desespero do fogo que destrói a alegria da família.
"E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.
Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe."
(TORRES, Antônio. Por um pé de feijão)
Qual será a salvação da lavoura? A força paterna. Enquanto todos lamentam, o patriarca percebe que ainda há como sobreviver, pois existe a força para o trabalho, mesmo que o vento leve a última cinza do feijão queimado pela maldade humana, e, "Deus tira os anéis, mas deixa os dedos".
Enquanto o homem tiver forças para fazer aquilo para o que foi criado, cultivar o jardim, haverá esperança. E o jovem narrador percebe que o velho está certo e, quando as chuvas voltassem, o ciclo da vida continuaria e eles logo estariam fecundando a terra novamente para esperar a colheita.





sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal!


Deixo vocês com este belo conto...


A noite em que os hotéis estavam cheios - Moacyr Scliar

O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.



sábado, 17 de dezembro de 2011

17 de dezembro - aniversário de Érico Veríssimo

No ano de 1905, na cidade de Cruz Alta, estado do Rio Grande do Sul, nascia neste dia 17 de dezembro o grande escritor Érico Veríssimo. Entre tantas obras importantes, destaco a saga "O Tempo e o Vento", da qual surgem personagens clássicos como o casal Ana Terra e Pedro Missioneiro e o valente e destemido Capitão Rodrigo Cambará. Outros personagens famosos na Literatura brasileira foram criados por Érico no chamado "Ciclo de Clarissa", romances que apresentam o cotidiano da vida na capital gaúcha e das pequenas cidades do estado, cobertas pelo tradicionalismo das famílias abastadas (algumas já não tão abastadas, como a do próprio escritor). A menina Clarissa, que o leitor acompanha desde os 14 anos até tornar-se uma mulher, seu primo Vasco Bruno com suas aventuras (que incluem guerras e romances), o amargurado Amaro, pianista frustrado apaixonado pela jovem Clarissa, o angustiado Eugênio, dividido entre a pobreza da família e o orgulho de se tornar um homem rico livrando-se de toda humilhação que sua condição financeira na infância acarretou; não podemos nos esquecer de Olívia, com suas cartas e seus pensamentos cristãos; e o que dizer dos mortos que voltam para reclamar seus direitos em "Incidente em Antares"? São tantos personagens que eu não conseguiria citar, acabaria cometendo injustiças, como esquecer da obra de Érico Veríssimo voltada para o público infantil, ou do soldado americano atormentado pela guerra e pelos conflitos pessoais em "O Prisioneiro".
O importante para mim é que Érico Veríssimo seja lembrado hoje om toda sua grandeza de homem consciente e escritor exemplar de grande importância para a literatura de língua portuguesa.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

16 de Dezembro

Olá amigos leitores do blog...
Há exatamente 26 anos, no dia 16 de dezembro, eu estava vindo ao mundo durante uma noite chuvosa. Mas este post não é só para falar do meu aniversário não, na verdade, neste mesmo dia 16 de dezembro nasceram dois escritores muito importantes para a Literatura mundial: são eles Jane Austen e Olavo Bilac.
A grande escritora inglesa Jane Austen nasceu no ano de 1775, em Steventon, no condado de Hampshire, filha do pastor anglicano George Austen e Cassandra Leigh.
A importância de Jane para a literatura é notável, pois seus livros se tornaram grandes clássicos mundiais e continuam amados até hoje, inspirando filmes, séries de TV e estudos sobre a obra de Austen.
O mais popular talvez seja "Orgulho e Preconceito", mas Jane também nos deixou "Razão e Sensibilidade", "A Abadia de Northanger", "Mansfield Park", "Emma" e por fim, o meu favorito "Persuasão".
No ano de 1915 Jane começou a sentir dores nas costas, fraqueza e muito cansaço. Os médicos nunca chegaram a um diagnóstico preciso, mas hoje, analisando os sintomas, existe uma certa inclinação pela Doença de Addison, doença rara e crônica em que as glândulas suprarrenais não produzem hormônios esteroides suficientes. Alguns dos sintomas são dores abdominais e fraqueza. Foi descrita pela primeira vez por Thomas Addison, em 1885, quase 40 anos após a morte de Jane Austen, que veio a falecer aos 41 anos, na manhã de 18 de julho de 1817. Quando morreu, a escritora já estava muito debilitada.
Já o "Príncipe dos Poetas" Olavo Bilac teve vida mais longa. Ele nasceu no dia 16 de dezembro de 1865 no Rio de Janeiro (capital) e faleceu na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918.
Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias.
Sua obra poética enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, pois só em 1888 publicou "Poesias", Olavo Bilac tornou-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia. Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista Fon-fon lançou em 1º. de março de 1913.
A sua obra pode ser disposta da seguinte forma: Poesias (1888); Crônicas e novelas (1894); Crítica e fantasia (1904); Conferências literárias (1906); Dicionário de rimas (1913); Tratado de versificação (1910); Ironia e piedade, crônicas (1916); Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.
Foi também um notável conferencista, escreveu contos e crônicas e, embora mais tarde os Parnasianos tenham sido o principal alvo de críticas dos Modernistas, Olavo Bilac tem destaque na Literatura como um dos mais típicos e perfeitos dentro do estilo Parnasiano.



domingo, 20 de novembro de 2011

20 de novembro - Dia da Consciência Negra (Viver outra vez)

Para o dia de hoje, recomendo a leitura do seguinte conto:

VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa

Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

- A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

- Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros.

Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

- O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado - fantasma que se escondia sob a cama.

- O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada?

Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

- Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

- Que foi?

- Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

- Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora.

Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar

“obrigado”.

- Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

- Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando futebol nas ruas.

- Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos, aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

- Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos?

Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

- Tem tanto pó!

- Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

- Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?

- Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado.

O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão da gargalhada.

Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

- Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora.

Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubina. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

- Coração?

- Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

- Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

- O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

- No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

- O que vocês fizeram foi bonito.

- São coisas que eu preciso esquecer.

- Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

- É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal e tirou o açúcar branco.

- A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou. Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

- Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão pré-menstrual? Que havia?

- Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos.Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

- Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.


Acho muito interessante a forma como os personagens vão descobrindo os sentimento e voltando mesmo a viver. A jovem que cresceu sem pai numa comunidade pobre, o idoso que viu seus sonhos de liberdade e igualdade não se concretizarem, que se sente melancólico ao ver que muitos não se importam com a questão racial e que, por isso, muitas histórias tristes continuam se repetindo. Neste conto o protagonista, através dos comentários realistas (ou pessimistas), exprime sua dor pela desigualdade:

"(...) No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.(...)"

Até mesmo o espírito ardente da juventude do qual a moça é imbuída não a livra de pensamento desanimadores:

"(...)- Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?(...)"

O Rap também aparece no conto como a Arte que populariza as histórias, muitas vezes tão semelhantes, fazendo com que os mais velhos se identifiquem nas letras atuais. É o passado e o presente que se assemelham:

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

- Racionais, conhece? Bom pra caramba.

"(...)Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?(...)"

Com o passar do tempo, o idoso começa a demonstrar que seus sonhos podem não estar mortos:

- Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

"(...)- É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia.(...)"

Por fim, aparece a esperança comum a todos: uma criança a caminha, os sonhos restaurados, tudo iria se iniciar novamente, a vida começa seu ciclo. Aquele filho era fruto do amor e dos sonhos daquelas duas pessoas. Não era apenas fisicamente que o idoso voltava a viver, eram seus sonhos que renasciam depois de tanto tempo de desilusões:

"(...)- Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem: É o filho – uns diziam.O neto – outros apostavam.- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.(...)"