sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não as matem - Lima Barreto

Não as matem

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio a morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão. O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas. De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação. O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.Deixem as mulheres amar à vontade.Não as matem, pelo amor de Deus!

27/01/1915


O que define um homem a frente do seu tempo? Para mim, podemos definir Lima Barreto como um homem a frente do seu tempo, não apenas pela estética literária que procurava aproximar a Literatura da linguagem popular; mas por ele ter escrito uma crônica na qual defende o direito de escolha da mulher...ele, sendo homem e filho de uma época de desigualdades de todo tipo, pedia para que as mulheres não fossem mortas por suas escolhas.
Podemos considerar este texto, escrito no ano de 1915, atual? Claro que sim! Vivemos num mundo que, de justo, só tem algumas saias. A nossa sociedade acredita que homens podem julgar mulheres e condená-las à morte porque elas transgridem as leis impostas pela maioria masculina. As regras que eles podem e devem transgridir, devem ser respeitadas por todas as mulheres, e elas só mercem respeito se forem mães, esposas e namoradas dedicadas. É a nossa forma de "apedrejamento" que nós tanto criticamos do Antigo Testamento.
Somos iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros. E, dessa forma, a sociedade continua governada pelo pensamento masculino que, muitas vezes, é cultivado até mesmo pelas mulheres. Quando nós mulheres criticamos "A outra" e apoiamos nossos maridos com a justificativa de que eles têm que seguir seus instintos, estamos servindo como mais uma peça na engrenagem da alienação.
Os homens são sempre os juízes, estão acima de tudo. Eles podem decidir se somos "para casar" ou não, se merecemos a vida ou a morte. Eles podem usar qualquer justificativa ligada aos seus instintos, pois, eles são animais incontroláveis...isso separa a criação entre homens irracionais e mulheres racionais?
Aos homens tudo se perdoa, mas, e a mulher? Assim como nos grandes romances do século XIX, a mulheres deste século tão "evoluído" não têm o direito ao perdão da sociedade quando transgridem suas leis e, desta forma, nós somos Madame Bovary e Ana Karênina deste tempo, e homens como o goleiro Bruno são nossos juízes e usam isso nos tribunais para defender-se. Até que ponto nossa soceidade pode ser considerada racional por agira desta forma? Temos que aprender muito com os animais irracionais então.

Um comentário:

  1. Em minhas andanças pelos hospitais da minha terra já vi muitas coisas, casos de fêmeas dominadas, maltratadas , quebradas e espancadas, não só uma vez, mas duas, mais, muitas mais, vezes sem conta, hematomas pelo corpo, olhos e boca...e sempre a mesma resposta para a pergunta do médico:"Ele é meu marido, eu tenho medo de deixá-lo..." Eu assisto à tudo aquilo, com vontade de batê-la também, mas para fazê-la acordar da vida de abuso...Isso n é amor, ser esposo não dá a ele o direito de abuso. Quantas vezes mais ela vai chegar ao hospital naquele estado, até que o "marido" acerte, uma bala no meio doa olhos e acabe com a vida miserável dela? Saio do quarto...Tenho outros pacientes para ver...

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