quarta-feira, 22 de julho de 2009

Poesia Barroca: Cultismo e Conceptismo

Um exemplo de poesia cultista:

Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das maravilhas, A quem infiéis despedaçaram.

O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo o sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.



Este poema de Gregório de Matos apresenta a forma de soneto (clássico) e através de um jogo de palavras utilizando “todo” e “parte” o poeta apresenta uma imagem de Jesus despedaçada e diz que o braço é parte, mas, também todo. É uma apologia a questão de que todos os batizados são partes de um todo que é a Igreja, que por sua vez, é o corpo de Cristo.


Exemplo de poesia conceptista:

Pequei Senhor...

1)Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

Da vossa alta clemência me despido;

Porque quanto mais tenho delinqüido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

2)Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja* um só gemido:

Que a mesma culpa que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

3)Se uma ovelha perdida e já cobrada

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na sacra história,

4)Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Este poema é de cunho religioso, mas, apresenta a sátira também. O poeta, através de um jogo de idéias, argumenta com Deus, fazendo com que Deus acredite que o seu pecado e resgate trarão mais glória ao criador, pois, Deus sem o pecador não é glorificado. É interessante notar uma prova do dualismo medieval, já que o poeta sabe que pecou e precisa do perdão para ganhar o céu, mas, ele não se arrepende e sabe também que vai continuar pecando e vai ter que pedir perdão outras muitas vezes e desta forma, continuará “glorificando” a Deus. A argumentação do pecador faz com que ele procure provas concretas da infinita misericórdia de Deus. Ele vai buscar nas próprias escrituras, as palavras do Cristo (Evangelho de São Lucas 15, 1-10). Desta forma, ele já fez a sua parte, só resta a Deus perdoá-lo.


6 comentários:

  1. avexxx....essa do todo e parte eh coisa feia! Lembra cris vc me ensinando isso???kkkkkkkkk

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  2. rsrsrsrsrsrs, lembro, é meio complicado mesmo.

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  3. Licris me ajudem eu não tô conseguindo entender direito sobre a diferença entre conceptismo e cultismo aplicando aos poemas, por exemplo o conceptismo é religioso e o cultismo não ?

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  4. O conceptismo trabalha com o jogo de ideias, de conceitos. O cultismo trabalha o jogo de palavras. Padre Antônio Vieira criticava o estilo cultista, pois achava um absurdo os fieis escutarem um pregador na Língua Portuguesa e não entenderem o que ele falava. A religiosidade está envolvida no movimento Barroco de uma forma intensa, é um estilo ligado com a Igreja Católica. Havia também uma dualidade do homem, que era dividido entre os prazes da Terra e a eternidade de paz no céu. Era o pensamento do homem naquela época, ele se entregava aos prazeres do mundo, mas não queria abrir mão da salvação eterna...isso andava contra os preceitos da religiosidade.
    Os dois poemas analisados acima estão ligados, de alguma forma, a religiosidade. No primeiro, Gregório de Matos utiliza o jogo de palavras para falar sobre uma imagem religiosa despedaçada, por isso ele utiliza muito as palavras TODO e PARTE, para mostrar que foi um grande sacrilégio terem despedaçado o braço do menino Jesus, pois ele é parte de um todo e o todo não é completo sem ele. Ele utiliza a questão dos sacramentos e a forma como Deus se revela TODO nestes sacramentos, embora seja apenas UM. É uma apologia ao corpo da Igreja que é formado por todos os batizados.
    O segundo poema é também de Gregório de Matos e apresenta o jogo de ideias sobre o pecado e o perdão. Um homem que pecou e sabe que pecou, conversa com Deus e diz a ele que seu pecado torna o criador ainda mais glorioso, pois é no perdão do pecado do homem que Deus consegue a glória. Ele diz que Deus não iria querer tornar-se menos misericordioso negando o perdão a um homem, portanto, quanto mais pecar, mais será garantido o perdão ao homem.
    Espero que tenha ajudado.
    Obrigada pelo comentário e pela visita.

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  5. perfeito!!! perfeito!!! perfeito!!! perfeito!!! ajudou muito

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  6. Nossa, o que meu professor de Literatura não conseguiu me explicar um semestre inteiro, você conseguiu, Licris! Muito obrigada! :*

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