sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ponto de convergência entre os romances "Dom Casmurro", "Madame Bovary" e "Ana Karênina".

Dois romances analisados são narrados em terceira pessoa. “Dom Casmurro” foge a regra e é narrado pelo marido da protagonista. Em “Ana Karênina” temos uma mulher da mais alta sociedade russa, uma dama por volta dos trinta anos, casada com um aristocrata vinte anos mais velho e mãe de um filho de oito anos. Em “Madame Bovary” uma mulher criada num convento, acostumada a ler romances românticos e sonhar com príncipe que a tiraria daquele marasmo do campo e a levasse a frequentar as grandes festas burguesas. Em “Dom Casmurro”, uma jovem, desde a infância descrita como “dissimulada”, casa-se com um jovem frágil, inseguro e enciumado. O que estas três mulheres têm em comum? As três chocaram a sociedade ao transpor as regras e cometer adultério, mas isto lhes custou muito e foi cobrado até mesmo com a própria vida.A forma como cada autor conduz a trama, leva o leitor a ter reações diferentes sobre as três mulheres. A personalidade delas deixa isto bem claro.Ana reluta em se entregar ao amante,
- Sempre parte, realmente amanhã? – perguntou ele. - Sim, acho que sim- volveu-lhe Ana, como que surpreendida com o atrevimento da pergunta.Mas o irresistível brilho dos seus olhos e o sorriso que lhe lançou enquanto lhe dirigia a palavra abrasaram-no.Ana Arcádievna partiu sem ter querido cear. (ANA KARÊNINA p.91 1º vol.).
O amor de Ana e Vronski faz com que ela seja excluída da sociedade e todos a olhem de forma diferente. Ana se sente mal ao ser olhada por Kitty, antiga namorada de Vronski, pouco tempo antes de sua morte:
Olhava para mim como se eu fosse uma coisa horrível e curiosa! (ANA KARENINA p.299 Vol 2).
Este é o preço que ela teve que pagar por viver o seu amor de forma livre, ao contrário da condessa Vronskaia, mãe de Vronski, que viveu vários casos com o conhecimento de todos, mas nunca os assumiu abertamente. A questão então não era o adultério em si, mas o escândalo e a reprovação que ele causa a quem não é discreto ao cometê-lo.A situação de Ana faz com que ela perca o controle e tenha crises de ciúme acreditando que Vronski irá abandoná-la quando ela não for mais um capricho seu. Brigas constantes tornam a sua vida ao lado do amante muito difícil:
_ Naturalmente quisestes ficar e ficaste. Fazes tudo o que queres (...) – exclamou, cada vez mais exaltada.- Acaso alguém aqui discute os teus direitos? Queres ter razão, pois fique com ela. Vronski fechou a mão, endireitando-se, e no rosto pintou-se-lhe uma expressão ainda mais firme.- Para ti é uma questão de casmurrice, sim, de casmurrice – repetiu ela, olhando fixamente Vronski, quando encontrou um qualitativo para aquela expressão que tanto a irritava. – Para ti o que importa é saber qual de nós acabará por sair vencedor. Mas para mim... – outra vez sentiu compaixão por si própria e pouco faltou para romper a chorar. – Se soubesses o que significa para mim a tua hostilidade, sim, é essa a palavra! Se soubesses o medo que eu tenho de uma desgraça em momentos assim, o medo que tenho de mim mesma! – e Ana voltou o rosto para esconder as lágrimas.- Mas a que propósito tudo isso? – perguntou Vronski, horrorizado, ao ver o desespero de Ana. E, inclinando-se de novo para ela, beijou-lhe a mão. – Por que me falas assim? Porventura busco distrações fora de casa? Não é verdade que evito o convívio de mulheres?- Não faltava mais nada – exclamou Ana.- Dize-me o que queres que eu faça para te tranqüilizar. Estou pronto a tudo para te fazer feliz – insistiu Vronski, comovido ao vê-la tão infeliz.Não é nada! Não é nada! – replicou Ana. – Nem eu própria sei. Talvez a minha vida solitária, talvez os meus nervos...Bom, não falemos mais nisso. Conta-me das corridas. Ainda não me disseste nada – concluiu, procurando esconder a alegria da vitória que acabara por obter. (ANA KARÊNINA Vol.2 p. 250.).
Às vezes, as brigas eram resolvidas com uma noite de amor, mas as desconfianças e o medo de Ana permaneciam e ela sentia-se desprezada por todos:
Não, não te permitirei que me atormentes”, pensou. Essa ameaça nem lhe era dirigida a ele nem a ela própria, mas apenas à causa de seus sofrimentos. (ANA KARÊNINA p.306 Vol.2).
Ana cai numa rede de intrigas construída por ela própria através da hipocrisia e do preconceito que a rodeavam. Isto a leva ao suicídio e a transformar todo o seu amor em vingança.O leitor fica confuso com Ana Karênina. Ela merece ser julgada por seu adultério? Ou merece a piedade por seus últimos dias, nos quais ela definhava acreditando não ser mais digna do amor de Vronski? Seu orgulho e o desejo de vingança contra o amante fazem com que ela perca a vida, mostrando que a sociedade, apesar de condoer-se dela, jamais poderia perdoá-la por uma falta tão grave. Já Emma Bovary é descrita como uma mulher que procurava realizar-se de todas as formas e por isso, escolheu o adultério como forma de realização. Já na composição da personagem protagonista, o foco literário é voltado para as futilidades de Emma e sua paixão pela idealização da literatura da época. Emma Bovary desde jovem teve uma “queda” por romances idealizados, seja pela criação que recebeu, por futilidade ou por ser fruto de uma sociedade burguesa que consumia a literatura como se fosse pão fresco.
Emma lera Paulo e Virgínia, sonhara com a cabana de bambus, com o preto Domingos, com o cão fiel e, principalmente, com a doce amizade de algum irmãozinho, que lhe colhesse frutos maduros em árvores mais altas que campanários ou que corresse descalço pela areia, para lhe trazer um ninho. (MADAME BOVARY p.29).
Sendo assim, a caracterização do marido de Emma, Charles Bovary, servirá para que o leitor perceba que ele não é o ideal de perfeição que ela procura. E isto leva a crer que ela não obterá a “felicidade” no seu casamento.
A um canto, atrás da porta, mal podíamos ver o novato. Era um rapaz do campo, de quinze anos mais ou menos, mais alto que qualquer de nós, os cabelos rentes sobre a testa, como um sacristão de aldeia, um aspecto compenetrado e acanhadíssimo. Embora não fosse espadaúdo, a jaqueta verde de botões pretos, muito apertada nas ombreiras, devia incomodá-lo bastante. Pela abertura das mangas, viam-se dois punhos vermelhos, acostumados à nudez. As pernas, enfiadas em meias azuis, saíam-lhe dumas calças amareladas muito repuxadas pelos suspensórios. Calçava uns sapatos grosseiros, mal engraxados, reforçados com pregos.Começou-se a recitar a lição. Ele era todo ouvidos, atento como a um sermão, sem ousar mesmo cruzar as pernas ou apoiar-se no cotovelo. E, às 2 horas, com o toque da sineta, o professor teve de avisá-lo de que era preciso entrar na fila conosco. (MADAME BOVARY p.5).
Era difícil para uma mulher acostumada a ler sobre heróis, se apaixonar por um homem risível. O casamento por conveniência não fez com que Charles conquistasse o amor de Emma e ela procurou em outros homens o que não via no marido. A sua última tentativa de sentir algo mais forte por Charles foi à ocasião da operação de Hipólito. Ela acreditou que se o rapaz fosse curado pelo marido, com a ajuda do farmacêutico Senhor Lê François, ela se apaixonaria pelo ato de glória. Mas tudo dá errado, e Hipólito quase morre depois de ser operado por Charles.
Hipólito estorcia-se em convulsões atrozes, e de tal forma, que o motor mecânico em que estava presa a sua perna batia na parede como querendo arrombá-la. (MADAME BOVARY p.133).
Sob outra perspectiva, Charles era também o marido perfeito para que Emma vivesse eventuais casos adúlteros, já que ele era facilmente dominado pelas mulheres que passavam por sua vida: primeiro pela primeira esposa, pela mãe e agora por Emma. A primeira tentativa de Emma é com Rodolfo, que vai procurar ajuda ao seu marido e se encanta pela beleza e pelo espírito de Emma que não se sente mal ao ver uma sangria. Quando Emma está com ele, ela faz a felicidade do lar e se torna uma esposa melhor e mais carinhosa com Charles. Os dois planejam fugir, mas quando Rodolfo vê que os propósitos românticos de Emma, ele a abandona e desencadeia uma crise que quase a leva à morte e faz com que Charles gaste muito no seu tratamento.
Experimentou comer. A comida sufocava-a. Desdobrou, então, o guardanapo, como a examinar nele as costuras; quis prender realmente a atenção nisso, contar os fios do tecido. De repente, a lembrança da carta lhe voltou. Tê-la-ia perdido? Onde a encontrar? Mas sentia tal fadiga de espírito, que nunca teria sido capaz de inventar uma desculpa para sair da mesa. Além disso, tornara-se fraca, tinha medo de Carlos – ele sabia de tudo, tinha certeza! (MADAME BOVARY p.152).E o pobre homem, além de tudo, tinha falta de dinheiro! (MADAME BOVARY p.155).
Emma tem a sua primeira decepção e não está preparada para isto, já que os manuais de felicidade que ela conhece bem, sempre terminam com um “Happy End” e ela não conhece a outra face das histórias de amor. Quando recuperada, encontra um amigo da família, o jovem Leon. Eles iniciam um caso e madame Bovary começa a construir o seu trágico fim. Com medo de perdê-lo, ela se afunda em dívidas e no consumismo e quando é abandonada, não encontra outra forma melhor escapar da reprovação de todos e opta por se suicidar. Uma morte lenta e agonizante não só para ela, mas para os que a acompanharam no seu sofrimento:
...Emma começou a gemer, a princípio muito fracamente. Sacudiam-lhe os ombros grandes arrepios e tornou-se mais branca do que o lençol em que cravava as unhas. O pulso irregular era agora quase insensível. (MADAME BOVARY p.233).
Podemos dizer que Emma Bovary viveu intensamente a sua vida, embora ela acreditasse não ter encontrado a felicidade, já que nenhum dos seus casos teve uma final feliz, mas o importante na caracterização da protagonista deste romance, é que ela era uma mulher filha do seu tempo e que representava uma burguesia ascendente na época. Por isso, o escândalo que causou na sociedade francesa do século XIX quando sua história veio a público. Muitos acreditaram não estar lendo uma história de pura ficção, tamanha era a verossimilhança de Emma que lhe davam uma alcunha de “retrato da burguesia”, o que machucava muito a instituição familiar pregada por ela. Através de uma análise sociológica, o narrador nos leva a conhecer a vida desta mulher, que morreu na tentativa de encontrar a emoção do herói que desejava tanto. Ela não conseguiu alcançar os seus objetivos, mas viveu intensamente cada instante dos seus romances, todos com desfechos trágicos, nos quais ela terminava abandonada e rejeitada por um “herói sem caráter” literalmente.O romance “Dom Casmurro” trás uma situação diferente dos outros dois analisados neste artigo. A história narrada nele, tem apenas uma versão: um homem ciumento e rancoroso, que acredita ter sido traído pela mulher que mais amou, conta tudo sobre seu romance, desde o início até a separação e por fim, a solidão no fim da vida. Em nenhum momento ele permite que Capitu se defenda e todos os sentimentos desta, são filtrados por ele, numa análise do caráter da esposa já falecida. Capitu, com seus olhos de ressaca, nos é descrita por seu marido Bento num momento no qual ele está convicto da sua traição. A protagonista é uma mulher de comportamento questionável para a sociedade do século XIX, ela toma a iniciativa em vários momentos da relação, isso se deve a força do seu temperamento em contraste com a fragilidade e o lado passional tão evidentes em Bentinho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos para ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu. - Levanta, Capitu!Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e... (DOM CASMURRO p. 66).
Esta característica sedutora de Capitu cria um contraste e que não é bem vista pela sociedade, mas proporciona à Capitu muitos aliados que no começo opuseram-se a ela. O ciúme de Bentinho é construído aos poucos, como se houvesse um Iago colocando em seu coração uma desconfiança em vários pontos:
... Capitu e a passagem de um dandy... Ora, o dandy de cavalo baio não passou como os outros; era a trombeta do juízo final e soou a tempo; assim faz o destino, que é o seu próprio contra-regra. O cavaleiro não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu olhou para ele; o cavalo andava, a cabeça do homem deixava-se ir olhando para trás. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. (DOM CASMURRO p.123). ...Os braços merecem um período.Eram belos, e na primeira noite que os levou nus ao baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios; concordou logo comigo. (DOM CASMURRO p.160 e 161).
Uma situação interessante presente no romance, é que num dia crucial para o desenvolvimento do enredo, o velório de Escobar, Bentinho acredita ver uma lágrima nos “olhos de ressaca” de Capitu, isto acontece numa sala cheia de pessoas, num ambiente em que a visão pode ser deturpada, como ele pode terá certeza de que era mesmo uma lágrima? Situações como estas colaboram para que o leitor fique confuso e não se solidarize tanto com o narrador Bentinho, que fica cada vez mais solitário sem ter mesmo nem a compaixão e compreensão dos leitores.
...Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...(...) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. (DOM CASMURRO p.183).
Portanto, a dúvida plantada no coração do leitor por Machado de Assis vai muito além da tradicional “Capitu traiu Bentinho ou não?” A questão é: ela teria coragem de trair os sonhos e a pureza da infância ou tais sentimentos não existiam?
...se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca. (DOM CASMURRO p.209).
Sendo assim, temos uma situação adversa, já que uma sociedade machista como a do século XIX, chega a ser seduzida por Capitu, uma mulher considerada adúltera. Esta mesma sociedade, desconfia dos argumentos de um marido possivelmente traído, que teria todas as razões para desprezar a esposa, segundo as normas vigentes naquela época. Isso se deve a forma como o foco narrativo guia o leitor através de situações ambíguas, que fazem com que a famosa questão “Capitu traiu ou não?” se torne um mero detalhe, perante a riqueza dos argumentos de um narrador que quer a todo custo, fazer com que o leitor se compadeça dele e da sua dor.
Os três romances têm uma semelhança primordial, o adultério feminino. Num deles, “Dom Casmurro” o adultério não é comprovado, fato que se deve a uma forma de narração em primeira pessoa, na qual um marido ciumento e cego por este sentimento acredita ter sido traído não só pela esposa, mas também pelo melhor amigo. Outra semelhança entre os três romances é o tempo do enredo: todos vivem suas histórias de amor, desconfianças e traições no século XIX, mas em países diferentes: na Rússia Czarista, na França Burguesa e pós-revolucionária e no Brasil do Império. Dois romances, “Ana Karênina” e “Madame Bovary”, são narrados em terceira pessoa, já “Dom Casmurro” é narrado pelo marido de Capitu, o que leva o leitor a desconfiar dos fatos que este apresenta, já que ele não permite que Capitu, em nenhum momento, tome a palavra e se defenda das acusações que o marido faz. As três protagonistas tiveram filhos, Ana teve um filho do marido, que ela acabou abandonando, e uma filha do amante. Emma teve uma única filha, que em meio ao seu egoísmo e ao seu tédio da vida, não conseguia fazer brotar em seu coração um amor que se espera de uma mãe. Capitu, por fim, teve um único filho, muito desejado por seu marido e que foi responsável por parte das desconfianças de Bento, já que, segundo ele, o filho era semelhante ao verdadeiro pai, o amigo Escobar. A forma como elas agiram com seus filhos deixa claro que elas não são mulheres como “pede” a sociedade, pois, tinham em primeiro lugar, sentimentos próprios em detrimento dos filhos. Elas não deixaram de ser mulher para ser mãe. Assim, Ana deixou a sociedade boquiaberta com sua atitude de deixar transparecer o amor que sentia por Vronski e abandonar o filho e o marido de tantos anos para viver com um amante que, apesar de rico, era visto como um boêmio pelo conservadorismo. Emma por sua vez, é mais discreta e até planeja uma fuga com o primeiro amante, mas esta é abortada pelo próprio. Ela choca o próprio leitor, que não se simpatiza com uma mulher como ela, que é filha da burguesia e busca no consumismo satisfazer seus desejos. Capitu, ainda menina, é a primeira a tomar posição no seu romance com Bentinho, ele chega a afirmar que é o “chorão” da história. Ao contrário dos enredos românticos, Capitu faz de tudo para seduzir aqueles que são contra seu romance e contornar situações que podem separá-la de Bentinho, a promessa de Dona Glória é uma destas situações que ela consegue desfazer, com a ajuda de José Dias, que no início era opositor a paixão dos dois. Ele acaba tornando-se seu aliado, assim como muitos leitores que são seduzidos pela presença de Capitu no romance, como uma menina que sabe o que quer e se transforma numa mulher sedutora, com seus olhos misteriosos que sempre intrigaram Bentinho e se tornaram intriga para quem lê o romance, seja qual for a sua opinião sobre a suposta traição dela. Os três autores utilizam-se de questões capciosas para intrigar o leitor. Ana Karênina é aristocrata e vive uma ótima e tranqüila vida ao lado do marido, sendo assim, não havia motivos para sentir necessidades na vida. Mas, tudo parece tranqüilo demais e ela procura nos braços do amante Vronski, a alegria e a aventura de viver um grande amor. Emma Bovary, por sua vez, deveria agradecer a Charles que lhe tirou da vida monótona do campo, mas ao tirá-lo daquele marasmo, ele não proporcionou a vida que ela esperava e, sobretudo, por sua descrição, nota-se que ele não era o marido dos sonhos de Emma. Capitu, também é tirada de uma situação adversa pelo marido: a condição de pobre, numa sociedade consumista e que visava os bens matérias, mas, a sensibilidade e a fragilidade de Bentinho não condiziam com a força e o temperamento de uma mulher tão a frente do seu tempo como Capitu. Teria ela procurado nos braços de um amante forte, o filho que Bentinho não foi capaz de lhe dar? Questões como estas causam no leitor uma catarse comum aos três romances: a dualidade quanto à questão moral. Segundo as leis vigentes naquela época, as mulheres adúlteras deviam ser odiadas e desprezadas, mas o leitor, seja do sexo feminino ou masculino, é tomado por dúvidas contrárias à moral e os bons costumes que conheceu na sua educação. É muito conhecido do público o processo contra Gustave Flaubert por imoralidade, na época da publicação de “Madame Bovary”. No julgamento, ao ser indagado “Quem era Madame Bovary?” ele apenas respondeu: “Madame Bovary sou eu”. Seu intuito era criticar a sociedade francesa representada por Emma Bovary e não a alguém em particular. Assim, cada uma destas três mulheres representa um pouco da situação vivida pela sociedade russa, francesa e brasileira em meados do século XIX, um século confuso, dividido entre o cientificismo e o cristianismo que não queria ceder lugar a este. Um século que vivia as conseqüências da Revolução Francesa na qual nobres perderam a cabeça, mas o poder acabou passando para outra classe, a burguesia, e formou uma classe que vive até hoje as injustiças daquela época, o proletariado. Seriam então, Ana, Emma e Capitu fruto de um espaço ou pessoas com uma índole já formada desde a infância? São questões que não devem ser respondidas, pois suas respostas são um conjunto de convicções do leitor, unidas ao estilo narrativo presente nos romances. O marido de Ana, Karenin, é um personagem dúbio, às vezes parece estar apenas preocupado com sua posição social e um escândalo que o adultério da esposa pode causar. Mas, quando Ana dá a luz à filha do amante, em sua casa, e fica entre a vida e a morte, sua sensibilidade e sua forma de agir com ela e a criança, traz ao leitor uma nova visão daquele homem aristocrata, uma visão diferente, mais sensível e até mesmo, de pena. Já Charles, marido de Emma é muito ingênuo e se deixa dominar pelo leitor, ele também é digno de pena e em certos momentos, chega a ser risível a sua ingenuidade e os cuidados que desvela para Emma quando ela fica doente ao ser abandonada pelo primeiro amante. Bentinho, por sua vez, causa raiva nos leitores seduzidos por Capitu e que acreditam na sua inocência. Ele se torna cada vez mais sozinho, e não pode contar nem com a solidariedade da sociedade à qual escreve. Um homem frágil, que se torna um casmurro na velhice. Neste período da sua vida, as alegrias do passado são substituídas pela solidão do presente e ele procura escrever suas memórias para unir o passado e o presente, por isso, constrói uma casa semelhante à casa de sua infância, alegando que esta já não lhe reconhece. São três homens que podem ir de vítima a algoz, mas através da pena sutil dos três autores se tornam dúbios aos olhos do leitor e causam os mais diferentes sentimentos. A sensualidade presente no enredo dos três é muito discreta e velada, isso porque a os conceitos da moralidade ainda não permitiam que o amor entre os casais protagonistas fosse explícito, afinal de contas, jovens leitoras iriam ler o romance. Ana se entrega a Vronski cheia de dúvidas e angústias, numa mistura de prazer e culpa que se estende por muito tempo, até engravidar e ter certeza que o filho é do amante, já que o marido não mantém relações íntimas com ela há mais de seis meses. Emma, no seu desejo de viver uma paixão como nos livros que leu no passado, se entrega freneticamente aos seus amantes e durante estes períodos, se torna mais doce e amável com o marido e com a filha. No romance “Dom Casmurro’’, há um capítulo que parece ter sido escrito só para servir de dúvida sobre o suposto caso de Capitu e Escobar. Certa noite, na qual Bento convida a esposa para ir ao teatro, ele se nega e diz ter dor de cabeça, mas ao chegar mais cedo em casa, ele encontra o amigo Escobar no corredor, este alega que estava à espera de Bento e eles iniciam uma conversa. É uma situação que Bentinho vê com outros olhos quando acredita na traição. Para ele, naquela noite talvez eles tivessem gerado Ezequiel, e esta é uma questão que ele se coloca a refletir depois da morte do filho. “Qual teria sido o dia da criação de Ezequiel?”. O foco narrativo leva o leitor a se identificar com as protagonistas ou não. Numa análise sociológica, o intuito de Gustave Flaubert ao escrever “Madame Bovary” é criticar a burguesia francesa ascendente no século XIX, portanto, através de sua narração, ele constrói uma personagem com uma característica pouco atraente ao leitor: A futilidade. Emma é uma mulher consumista e que passa por cima de qualquer coisa para conseguir sua felicidade, que na sua concepção, é ter um amante e viver aventuras e paixões avassaladoras como as dos folhetins. No romance, Emma casa-se tentando encontrar a felicidade, arranja amantes para encontrar a felicidade e compra muitos presentes a estes amantes e coisas para si própria para tentar manter esta felicidade. Ela tem relações vazias e baseadas no materialismo, o que representa o individualismo crescente na sociedade francesa pós-revolução industrial. Agora era cada um por si, uma livre concorrência nem sempre justa, já que os industriais com mais recursos passavam por cima de qualquer pequeno artesão ainda remanescente dos tempos passados. O “lugar ao sol” era necessário para se firmar como burguês. As aparências deviam ser mantidas para que esta classe se consolidasse como a classe dominante, perfeita e feliz. Nascia então, a hipocrisia, tão criticada por Flaubert através da figura de Emma Bovary, que é gentil e solicita ao marido enquanto está com seus amantes, que contrata uma ama de leite para criar a filha para ter mais tempo de pensar em si própria e nos seus anseios... são as relações mecânicas que nasciam com a nova era industrial, o ser humano cada vez mais mecanizado e individualista. Através da figura polêmica de uma mulher adúltera, Flaubert constrói um retrato francês da sua época, se transformando num cronista das coisas que a burguesia tentava esconder a qualquer custo. Isto é a razão das críticas e até mesmo um processo contra ele. Ninguém queria se ver retratado como o risível Charles Bovary, os cafajestes amantes de Madame Bovary e principalmente, como a própria Emma, que não consegue alcançar a felicidade que ela tanto almeja e que sem forças para enfrentar as situações que criou, se suicida, como se isto apagasse todos os erros que cometeu. Como cartada final, Flaubert coloca Emma como uma covarde. Tolstoi, através da sua narração, conseguiu empregar dignidade à Ana Karênina, mesmo tendo os preceitos morais contra ela. Ana teve apenas um amante e este foi o amor da sua vida, sua ruína, isso a torna, perante a sociedade que condena a promiscuidade, mais digna do que Emma, por exemplo, que se envolvia em paixões sem raízes. Ana aceitou, com relutância, se entregar a um homem que não era seu marido, esta era uma situação de adultério, mas o maior escândalo foi o fato do casal de amantes não ser discreto e deixar seu amor transparecer a todos. Ora, a mãe de Vronski não tinha vivido casos extraconjugais também? Ela não era vista com maus olhos por ter feito tudo às escondidas e não ter tido a coragem de abandonar seu marido e filhos para viver nenhum grande amor, talvez porque ela só tenha vivido aventuras e o grande mau, era amar de verdade e se perder por este sentimento. Tolstoi, através de sua pena, cria uma personagem com sentimentos e fraquezas bem comuns a qualquer ser humano, ela tem medo de se entregar ao amante não pela culpa, mas pelo julgamento que iria receber se isto acontecesse. Depois de estar com o amante, ela tem medo de perdê-lo, pois conhece a fama do amado e acha que pode ter sido só mais uma conquista que agora não era mais interessante para ele. Mas em seu íntimo, Ana usava este ciúme como uma forma de se culpar por ter feito algo que não era correto, por isso ela não se permite ser feliz e é cercada por lembranças que a escravizam, como a imagem do camponês morto no dia que conheceu Vronski. Desta forma, o foco narrativo leva o leitor a ter compaixão por Ana, e aquele que se identifica com ela, fica satisfeito após o desfecho triste da personagem. Ela se atira debaixo dum trem, na mesma estação onde ela e Vronski se conheceram, numa cena cercada de simbologia para ela. Lá, onde tudo começou tudo iria terminar para ela, mas para Vronski, restaria uma eternidade de culpa, por ter deixado-a de lado. É o último resquício de orgulho e humanidade para ela, um sentimento de vingança faz com que tenha coragem de tirar a própria vida. Sendo assim, nota-se que Tolstoi pretendia criticar através de Ana, a sociedade hipócrita que aceitava o adultério, mas não o divórcio. A trajetória de Ana retrata a vida da mulher naquela sociedade, que devia ser submissa como Dolly e aceitar as traições do marido, já que o adultério masculino não é visto de forma ruim. Isto faz com que o romance de Tolstoi tenha uma ligação com a obra de Flaubert, cada um ao seu modo, eles criticaram a sociedade na qual viviam através das situações e personagens que escreveram. No romance “Dom Casmurro” temos uma situação atípica dos outros dois analisados: a narração em primeira pessoa. Pela primeira vez, um marido toma a palavra e decide contar uma história de amor frustrado, uma situação incômoda e constrangedora. Ele acredita que existe uma única verdade; a de que foi traído pela esposa e melhor amiga e pelo amigo compadre Escobar, e, além disso, nem um filho não lhe restou, já que ele vê semelhanças suficientes entre o menino Ezequiel e Escobar para afirmar que eles são pai e filho. Bentinho tenta através de sua história, atar o passado e o presente. Mas se ele vivesse até nossos dias, ficaria frustrado, já que sua amada Capitu, sedutora como sempre, seduziu o leitor que fica em dúvidas sobre os argumentos daquele marido ciumento. O seu ciúme é um dos motivos para o leitor desconfiar...ele poderia estar cego por este sentimento e ter interpretado situações de uma forma diferente da realidade. A narração do livro leva o leitor a uma dualidade que não lhe permite aceitar qualquer fato como verdade absoluta. Em nenhum momento Capitu toma a palavra e se defende. Até mesmo alguns fatos que Bento apresenta não são tão confiáveis, como a semelhança entre Ezequiel e Escobar, por exemplo. A mãe falecida de Sancha, esposa de Escobar, era muito parecida com Capitu e elas não eram mãe e filha. Escobar no corredor da sua casa numa noite em que ele estava fora poderia estar mesmo apenas esperando o amigo. Machado de Assis, como retratista da realidade, descreve Capitu como uma filha de seu tempo. Uma mulher sedutora, como o próprio período do século XIX com seus avanços e sua burguesia que afloravam; mas acima de tudo, uma mulher que sabe conter-se perante a sociedade. Ela, com seus “olhos de ressaca” se tiver mesmo traído Bentinho, como ele acreditou, foi muito discreta e seu único erro, foi ter tido um filho do amante, que agora denunciava sua condição. Bento, como filho da burguesia, procura viver sua vida calma com a família, sem problemas externos para se preocupar. Mas ele escolheu uma mulher a frente do seu tempo e isto pode ter atrapalhado os seus planos, assim como tudo que foge aos padrões atrapalha os planos da burguesia. Como não comparar três romances que têm como fio condutor três mulheres subjugadas por sua época e que intrigam leitor até hoje? Como não comparar três obras escritas num mesmo século, em três países diferentes, mas que contam com julgamentos tão semelhantes? Como não comparar três obras nas quais o foco narrativo guia a opinião do leitor e descreve cada uma das protagonistas como retratos do seu tempo e da sua sociedade? Por isso que entre as suas diferenças e semelhanças, “Ana Karênina”, “Madame Bovary”, “Dom Casmurro” são mais que simples histórias de amor, são histórias da sociedade.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo Blog esta Maravilhoso .. !! muito educativo, e interessante ..

    (( O Livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado .. Mario Quitanda))

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