quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dom Casmurro e São Bernardo (Comparação)

Duas mulheres vítimas de maridos ciumentos. Dois romances que estão entre os mais populares e enigmáticos da Literatura brasileira. De fato, “Dom Casmurro” e “São Bernardo” têm pontos em comum, que podem ser comparados para uma melhor compreensão das obras. Os dois maridos são muitos diferentes; Bentinho é um jovem frágil e dependente, enquanto Paulo Honório é um homem rude, marcado por uma vida difícil e que não mediu forças nem teve escrúpulos para conquistar a fazenda São Bernardo. Bentinho era um filho da sua época, um burguês que vivia de renda e era mimado pela mãe viúva, vivendo cercado de empregados e com tempo livre para se apaixonar pela vizinha sedutora. Paulo Honório era árido com a sua terra. Seco como os campos nordestinos castigados pela estiagem freqüente, que o faziam parte da paisagem dura e sofrida.O ciúme dos dois é guiado por diferentes motivos. Bentinho achava que a esposa o traia com seu melhor amigo, mesmo depois de lutar contra todos para viver o grande amor que nutriam um pelo outro desde a infância. Era mais do que uma traição de esposos. Era uma traição aos sonhos da infância, a pureza de um amor que só se concretizou a custa de muita luta e perseverança. Por outro lado, Paulo Honório possuía por sua esposa um ciúme carnal. Ele tinha medo de que Madalena se deitasse com outros homens e o humilhasse perante os empregados e outras pessoas que ele considerava valerem tanto quanto “bichos”. A obsessão, porém, era igual. No seu desespero Bentinho acreditava que a traição era uma verdade absoluta e começava a analisar situações do passado de forma diferente, sob o olhar da desconfiança. Paulo Honório olha para cada um dos seus empregados e imagina se sua esposa já teria dormido com eles. Cada um da sua forma, os dois castigaram suas esposas pelas supostas traições. Bantinho impõe o exílio à Capitu e a seu filho, embora para muitos, o exílio na Europa não seja um castigo digno de pena. O rude Paulo Honório, por sua vez, impõe uma tortura moral à Madalena, que a leva ao desespero e enfim, ao suicídio. De qualquer forma, os dois conseguiram impor suas vontades e seus castigos, sendo juízes e utilizando seus próprios conceitos para julgar suas esposas.
Capitu e Madalena, a primeira vista, são mulheres muito distintas entre si. A primeira é descrita desde o início, pelo marido, como sedutora, com seus olhos de cigana, sua força e seu comportamento a frente da sociedade em que vivia. Madalena é frágil, uma professorinha de cidade do interior. Mas, as duas têm algo em comum. São mulheres que lutam pelo que querem e procuram satisfazer suas vontades e impor seus conceitos, mesmo em sociedades machistas e opressoras como o Brasil do século XIX ou o interior nordestino de meados do século XX. Capitu sabe bem que não é desejada como esposa de Bentinho, já que o jovem está prometido ao seminário e a vida clerical por sua mãe. Ele percebe muitos opositores, como o empregado José Dias, por exemplo. Ela entende que precisa agir de alguma forma e usa o método da sedução para conseguir com que todos que se opunham ao seu romance, sejam vencidos e fiquem ao seu lado. Bentinho mesmo admite que Capitu fosse o lado forte da relação, pois ele era um chorão e muito mais frágil do que ela. Em nenhum momento durante as acusações, Bentinho permite que Capitu se defenda e isso cria uma das maiores dúvidas, senão a maior, da Literatura Brasileira. Teria Capitu traído ou não o marido? Ora, ele estava transtornado pelos ciúmes, era um homem fraco e enxergava as situações da forma que lhe apetecia. Por ouro lado, algumas situações foram criadas especificamente para causar a dúvida: Capitu queixando-se de dor de cabeça para não ir ao teatro com o marido e este flagrando Escobar no corredor de casa é uma destas situações. Com o passar do tempo e as suspeitas aumentando, Bento passa a enxergar esta situação com outros olhos.As suspeitas, na verdade, não são o ponto principal do romance. O ponto principal são os personagens e situações criados por Machado de Assis. Capitu, por exemplo, é uma das personagens mais intrigantes da Literatura mundial e seus olhos de cigana oblíquos e dissimulados fizeram a sociedade machista do século XIX sentisse atraída a acreditar numa possível adultera e rejeitar as opiniões de um marido possivelmente traído. Madalena é uma mulher de aparência frágil, diferente daquilo que Paulo Honório imaginava para mãe do seu herdeiro. Mas, ela é também uma mulher que luta pelo que quer, procura impor-se ao marido, impor seus conceitos de solidariedade e no início da relação, tem esperanças de mudar o pensamento machista e nada fraterno de Paulo Honório. Com o passar do tempo, Madalena percebe que para o marido, ela era apenas uma reprodutora que lhe deu o que tanto desejava: um herdeiro para as terras de São Bernardo. Sentindo-se oprimida pela obsessão ciumenta do companheiro, ela suicida-se, num ato parecido com o de outras protagonistas que se viram sem saída. Em primeiro lugar, o leitor deve notar que as duas mulheres agem na estória e dão forma ao texto dos autores. Capitu se destaca como protagonista, deixando para seu marido ciumento e solitário, o lugar de segundo protagonista. Madalena, por sua vez, é uma personagem interessante, que se contrapõe a personalidade dura e pouco simpática do marido. Duas estórias escritas em épocas diferentes, mas que conduzem o leitor a reflexão sobre as relações humanas problemáticas, relações estas que os classificam até hoje como clássicos da Literatura Brasileira.

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